terça-feira, 21 de abril de 2009

Paizinho, um chiluno, um onganga, ou um menino, simplesmente???

Encontrámo-nos nas ruas de Benguela. A cabeça encapuçada lembrou imagens do "Homem elefante" de David Lynch. Pelo talhe via-se que era apenas uma criança, encapuçada, magra, muito magra, descalça, que estendia a mão, sem palavras, para recolher uma ajuda. O que ocultaria aquele tecido de fioco, sujo, húmido, feio, quase repugnante? Um rosto oculto porque doença? Chaga? Disformidade? A quem perguntámos não conhecia resposta... era assim uma espécie de mendigo-menino, fantasma, bruxo, ex-libris social de uma sociedade sem espelho onde contemplar os seus estimas.
De cada vez que nos sentávamos no Tan-Tan, e sempre que ele aparecia, colocavam-se-nos perguntas adicionais:
- O que se passou? Porque esconde a cara? O que se pode fazer por ele?
O tempo passava, o óbulo acontecia, mas a abordagem tardava.
Seria aquela figura vítima de doença, de disformidade gené-
tica, de negligência aleatória? E depois... o que fazer com a resposta? Tudo continuou assim como que num compasso de "não sei se deva", até Dezembro de 2005. Tinham passado dois anos de encontros esporádicos, de perguntas sem resposta. Na nossa cabeça alinhavavam-se algumas ideias que, até então, nunca transpuzeram a porta dos lábios.
O Paizinho foi-se tornando, para nós, um "ex-libris" da so-
ciedade benguelense, seguramente,pela singularidade da sua vida errática e mendicante. Em Benguela, pedintes são bwé... Paizinho há só um.
Evocando Lenine - e porque não? - "O que fazer?", transfor-mava-se numa pergunta retórica. Que poderia fazer-se?

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